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Boa leitura!
UM CERTO ANIMAL
– Passo o dia a refletir
sobre o que eu possa ser. À noite, quando se descuidam, saio de meu
esconderijo para observar a lua pelas pequenas aberturas da máscara
de pano. Moro na lama, na lama e no exílio de meus dias. Conheço quase
que exclusivamente a noite. Minha casa não passa de um laboratório.
Chamam-me o homem-elefante-das-terras-quentes, ou o homem-dragão. Meu
desfigurado corpo é alvo das lentes obstinadas da ciência e transformou-se
em ponto turístico desta cidade beira-rio (beira-lama seria mais correto).
Uma certa parte da semana fazem fila para observarem meu corpo. Talvez
saibam que escapulo de vez em quando e não se importam, pois sabem
que não irei longe. Estudam meu corpo e meus hábitos com um cuidado
antigo. Não há espelhos em minha casa, para que não me ofenda com
minha imagem, ou para que não me perca dentro de mim mesmo. A comida
chega em vasilhames de alumínio. Às vezes choro. Tento organizar uma
civilização, onde os seres humanos são animais estranhos e as casas,
laboratórios. Talvez as diferenças e discriminações não existam
nesse país. Escondo os projetos dos cientistas. Pedi a eles para me
darem uma certa privacidade. Fizemos um pacto. Pensam que sou híbrido
ou algo parecido. Vocês podem ter uma vaga noção. Tenho a pele negra
e grossa como casco de tatu, os ossos estufados e desiguais. Toda minha
feiúra causa espanto. Não compreendiam que debaixo das carnes malfadadas
estava um homem. Traziam capim para eu comer. Tinha medo de que aos
invés de palavras saíssem bramidos de minha boca. A realidade sobrepuja-me.
Conhecer um monstro pelo lado de dentro... Fazem experiências comigo.
Vivo nos livros. Vocês devem estar perguntando: como aprendeu a ler?
Mas se esquecem de que um grupo de cientistas agora dão-me tudo de
que preciso e ensinaram-me a ler. Mesmo desobedecendo a ordens, saio
de casa, mas somente na madrugada, quando ninguém poderá me reconhecer,
coberto pela máscara de pano. Os poucos transeuntes tomar-me-ão por
bêbedo ou mendigo. Caminho sobre as tábuas do porto, provocando um
barulho elefantino com meus pés grossos e redondos. Pensam que sou
um fantasma de alguma bicho morto. Os estivadores recolhidos nos casebres
deploráveis saem para o trabalho. Volto ao laboratório. As pessoas
dizem as piores coisas a meu respeito: que sou uma metamorfose não
terminada; algum deus castigado; um mimetismo; um dragão fora de moda.
Penso na morte e não posso entrever diferenças entre morrer na humilhação,
dando o corpo aos crucificadores ou aos magarefes ou à podridão. A
morte seria uma libertação. Sei que muitos apontam o dedo de longe,
dizendo: aquela é a casa do homem-dragão, ganhando dinheiro fácil
com minha desgraça. Vou ao porto olhar a lua e esquecer minha condição
miserável. Fujo de mim mesmo. Compreendo que devem haver outros. Levanto-me
na hora exata, lavo o rosto, a tromba, como, escrevo poemas, penteio
os poucos cabelos sem espelho e deixo-me examinar por um punhado de
cientistas. A pequena tromba que se insinua no lugar do nariz, os ossos
estufados e desiguais como as paredes de um edifício em escombros,
as pernas grossas e mancas, as patas de elefante não podem representar
o que realmente sou. Não sou um monstro, um canibal, mas não sei mais
de que isso. Sei somente que a pequena tromba que se insinua no lugar
do nariz, os ossos estufados e desiguais, as pernas grossas e mancas,
as patas de elefante não podem demonstrar o que sou. Quando vou ao
porto vejo alguma sombra de gaivota que me traz calma. Perco-me em pensamentos.
Tudo volta à velha rotina e isso me alegra. Somente quando os cientistas
vêm-me ver sinto-me melhor e chego a abanar o rabo como um cão. Desculpem-me:
esqueci-me de dizer sobre o rabo: na verdade é apenas mais um capricho
e não deve exceder aos 20 centímetros.