Trancafiado, enfim. Desta
cela cinzenta e acolchoada, vejo apenas noites sem lua. Ou sou eu que
estou cego? O abuso de remédios quase me impede de ficar em pé, o
que é bom, pois me mantém longe da eletricidade que atravessa
os limites de minha prisão.
É claro que não estou
dopado por acaso. O intuito também não é minha recuperação. É
bem mais perverso: querem que eu esqueça minha história, passando
assim a não ser. Não-ser. Só o ser ameaça, eles bem sabem. É por
isso que é tão importante manter minha memória.
Não que eu consiga recuperá-la
por completo. Minha infância é um borrão, no qual mais adivinho
coisas, nas imagens espelhadas, do que realmente me lembro. Adolescência,
faculdade, trabalhos, tudo é noite escura e floresta negra.
Mas eu me lembro bem
dela. É por isso que ela continua mandando os remédios para dentro
de minha cela. Pois é a ela que devo esquecer.
Manter viva minha história,
mesmo que seja a história de uma loucura.
Eu a vi por muito tempo,
da janela de meu apartamento. Provavelmente tinha a minha idade –
algo em torno dos cinqüenta. Seus cabelo seriam tão grisalhos quanto
os meus, se nela ainda não fosse viva a chama do desejo da juventude.
Ela os pintava de vermelho. Sua pele, diferente da minha, mantinha um
frescor de hidratante. Suas mãos eram finas e seus dedos – tão semelhantes
aos meus – eram longos e inquietos.
No começo, eram apenas
olhares esparsos trocados há um vão de distância: a rua entre
nossos prédios. Eu a via quando ela passava por sua janela. Ela não
notava, a princípio, mas nunca sem deixar de notar em algum nível.
Pois ela sabia exatamente – mais do que eu – o dia em que primeiro
a vi.
A verdade é que,
em algum lugar dentro de mim, eu esperava vê-la. Sabia que ela passaria
naquele ponto aberto entre cortinas, naquele exato instante em nada
especial. Eu a vi. Ela me viu.
Mas é fato: tê-la
visto marcou mais a ela do que a mim. Para mim, era apenas uma vizinha
desconhecida que, por coincidência, passava na janela quando eu mirava
a cidade.
E ela passou a me acusar
de persegui-la! Paranóica! Sei que os médicos concordariam comigo!
O que, de fato, não muda em nada minha prisão.
Acabo de ver um raio
cortar as grades de minha cela. Passou rápido, mas ainda ouço seu
estalo.
Aos poucos, notei que
ela se escondia atrás da cortina. Começou a perder a coragem de se
colocar sob minhas vistas. Como se estivesse nua. Como seu eu pudesse
penetrá-la com meu olhar.
Foi isso que me incomodou.
O medo dela. Atiçou
minha raiva. Foi por isso que a persegui, aquela vez, na rua. Ela entrou
em pânico. Gritou, chamou um guarda, mas eu corri e me escondi no aberto
da multidão, que se fechou sobre mim como um oceano.
Sei o que você
está pensando, agora: que eu realmente persegui a velha e que
o louco sou eu. Não é verdade. Depois que ela acionou a polícia,
resolvi manter distância. Mas não podia mais passar em frente à minha
janela. Ela estava sempre lá, me observando. Comprou até binóculos!
Seu medo era tanto que eu comecei a temer.
Demorei a entender porque
eu a temia. Havia algo no medo dela que ultrapassava o medo. Que, aos
poucos, se tornava desejo.
No princípio, achei
que ela me desejava. Sexualmente, entende? Mas não era isso... Ela
desejava... como dizer isso sem parecer louco?... Ela desejava a mim.
Ser quem eu era. Tornar-se eu... Tornar-se... Tornar-se?... São as
drogas. Já não lembro meu nome. Não importa, o que importa é ser.
E ser é ter história. Então, por favor, me ouça.
Passavam os dias e o
olhar dela era tão incidente que eu sentia náuseas ao passar em frente
à janela. Resolvi que era necessário por um fim naquilo. Ela não
atendia minhas ligações. Podia vê-la, pela janela, olhando para o
telefone que tocava (eu gesticulava para ela: pegue o telefone, pegue
a porcaria do telefone!). Ao mesmo tempo, o medo me impedia de ir até
seu apartamento.
Não sei como ela fez.
O desejo pode mesmo ser potente. Ou ela sabia bruxaria. Não tinha cara
de bruxa. Talvez a faxineira gorda, ou a vizinha prostituta. Podiam
saber macumba, sei lá. Estou parecendo louco, mais uma vez? Você tem
que acreditar: no meu caso, é apenas stress pós-traumático.
Se fosse ao contrário, você estaria, agora, tentando me convencer
de que não é louco. Coloque-se em meu lugar.
Passei a sentir uma espécie
de formigamento embaixo da pele. Como se minha alma estivesse lutando
para se agarrar às células. Foram dias de uma sensação que me causava
enjôos e febre. Não conseguia sair para comprar remédios. Eu a ouvia
rastejando por minha carne, se agarrando em meus ossos para subir por
minha espinha. Lutava ensandecido! Joguei-me contra a parede, tentei
ficar submerso na banheira, induzi o vômito para ver se a expelia de
mim.
Então a coceira passou
e tudo voltou ao normal. Foi a primeira noite de sono em paz que tive
desde que a tinha visto pela primeira vez.
E a última.
Quando acordei, algo
estava diferente. Eu via através de meus olhos, mas não era eu.
Ela havia conseguido.
Quis correr para o espelho,
mas tive que esperá-la se arrastar, se apalpar (ela tocou meu... meu
órgão... nós dois incrédulos com o fato...). Quando, enfim, chegamos
em frente ao espelho, foi o corpo dela que vimos.
Eu não sei o que deu
errado. Estávamos no apartamento dela. Ao invés dela invadir meu corpo,
fui eu que parei no corpo dela. Continuava me sentindo homem (quando
ela acariciou seu rosto, eu senti a aspereza do rosto por barbear).
Mas o espelho refletia seu corpo.
Ela olhou para baixo
e gritou. Eu vi os seios siliconados mas já sem viço. Nossos
corpos haviam se fundido? Ou simplesmente nossas almas ocupavam os dois
corpos ao mesmo tempo?
Para nossa sorte, ela
desmaiou. Eu a vi cair, sem consciência. Estava, novamente, em frente
à minha janela.
Depois disso, sentia
uma insegurança tão grande que passei a andar armado. Claro que isso
não fazia sentido: eu atiraria em mim mesmo se ela fizesse aquilo de
novo? E, de qualquer forma, eu não tinha o menor controle sobre os
meus movimentos...
Raiva e medo juntos podem
ser destrutivos. Não tão poderosos quanto o desejo, mas entenda: eu
parecia estar no limite de minha sanidade.
Passei a dormir no telhado
de meu prédio. Sempre apontando uma arma para a janela dela, esperando
que ela aparecesse. Se eu a mataria? Eu deveria dizer que não, para
que você acreditasse em minha inocência. Mas a verdade é que, tomado
de ódio e terror, eu a teria matado se tivesse a chance. A mira de
minha arma andava como um vagalume sem asas pelas paredes e chão da
casa dela.
Mas ela sabia disso.
De alguma forma, nossas almas tinha se ligado fortemente. Ela evitava
passar pela janela ou mesmo sair de casa. Mas isso só fortaleceu meu
desejo de estourar-lhe as entranhas. Em minhas visões – que, tenho
certeza, ela compartilhava – eu via a bala entrando por suas costas
e saindo pela barriga, com seus intestinos acompanhando o vácuo do
tiro e se espalhando pelo carpete velho e careca. Em meus melhores devaneios,
pedaços de fígado derrubavam o vaso horroroso com flores pintadas
que ficava ao lado do telefone.
De novo, me defendo:
você não faria o mesmo? As pessoas matam os ladrões que invadem
suas casas. Eu deveria ter o mesmo direito quando alguém tenta invadir
meu corpo!
Mas eu não a matei.
Cheguei muito perto disso. Tão perto que ela ligou para as filhas.
Horas depois, eu percebi que podia senti-la mesmo através das paredes.
Enchi-me de coragem e da crença de que uma arma daquelas podia atravessar
a parede e matá-la do outro lado.
Ela se desesperou. Saiu
correndo do apartamento, desceu as escadas e saiu à rua.
Era a chance perfeita!
Mas, naquele exato momento,
uma ambulância parou na calçada em frente. Depois entendi que não
foi uma coincidência: uma das filhas acionou o serviço de emergência.
Três enfermeiros desceram e, com muito custo, dominaram a velha.
Eu não podia atirar.
Tinha medo de atingir um dos rapazes. Não queria matar um inocente.
Ela foi levada embora.
Senti um vazio imenso,
confesso.
Não pude mais dormir.
O sono era agitado. Sonhava com ela em alguma clínica, conversando
com os médicos. Enfim, no final do terceiro dia, sonhei que tomava
remédios.
E acordei aqui, nessa
célula de grades cinzentas. Preso numa parte do cérebro da velha,
que tenta me esquecer.
Como seu eu fosse apenas
uma alucinação.
Como se eu não tivesse
uma história...