Estranhos
envolvidos numa alma insone. Manhã fria: quem não acordou ali, morto
permanece. O silêncio escorre entre as primeiras listras luminosas,
inacabadas luzes. A casa cabia poucas frestas. Úmida. Amanhece, e um
fio de palavras distantes ocupa o vento, rasteja até aos ouvidos de
hóspedes e humildes. O casal acorda. Não anuncia o despertar. O lugar,
sempre aos pés do medo, se encarrega de abrir os olhos de todos. Os
dois descem a escadaria. “Sorrir é uma desgraça”. Ele concorda
com um sinal forçoso nos lábios. No último degrau, pronuncia: “Seres
de Chaterveell, não morram por amor. Saibam, atiro a morte aos amantes
dos maus desejos”. Terminou a fala e sentaram num sofá vinho de respingos
vermelhos. Vozes aumentam. Agitação e desequilíbrio na sala. Ninguém
imagina o fim da manhã ou o começo da noite. Um barulho deixa a atmosfera
indecisa. Não podem correr os convidados. Não há saída. Há agonia.
O
som parece um bicho acuado, invadido na mata escura, e as árvores gritam
de dor. Muito barulho. Todos querem correr, mas as pernas obedecem somente
ao medo. “Não sabemos das respostas”, comenta uma humilde, desgraçada
entorpecida, cheia de manchas de sangue, numa na cadeira de cinco pernas,
ao lado do casal. A fúria velada deles escuta corações, e quer saber
dos desesperos ainda mais de perto.
“A
miserável demais morre queimada, furada por chifres, esmagada por bichos
alados. E facões de aço dão fim à cabeça. Esse é meu terror salivado
aqui na casa de chamas brutas”, perturba a bela Chaterveel. “Cansei
de ver, quero participar. Sejamos”, e aponta aos coitados. “A maldade
aplicada descarna. Maltrato com prazer. Homens e mulheres rolam no fel
dia após dia. Seremos os doentios adoradores do corpo”, ele completa
a loucura.
“A
Alma do prazer está em nós. Vamos aliviar nossas penas, seres de carne!
Não amem nada agora, comam!”. A leitura sempre pela manhã fresca,
na casa dos Chaterveell. O mausoléu é abraçado por enormes trepadeiras.
Janelas e grandes portas rangidas – gritam para abrir. A matança
acontece nas sacadas principais. O quarto do casal Chaterveell é um
infinito mistério. Quem passa pela casa dos Chaterveell, jamais sobrevive
sem as ordens da morte. Os amantes são os fiéis protetores e serviçais.
“Trabalha, ser. Assim sustentamos a vida que lhe és digna”, mais
um trecho marcado no Livro do Fogo. Suas letras saltam selvagens como
labaredas. Ninguém desafia a inteligência do casal. Sabedoria é a
seta em brasa que fura o coração dos amantes. Tinham a chance de convidar
o gado para cear no Salão dos Ecos do Prazer.
Ali
gemem os mais suculentos corpos da região. Taças medievais são cálices
sagrados de sangue. As gotas que escorrem são aparadas. Como bebiam!
Os convidados permanecem de olhos arregalados, encantados pelo caldeirão
de prazer-morte que é o mausoléu. Um lugar de almas desoladas, barrigas
furadas e vermes vorazes. Mais uma vez se abre o Livro do Fogo, e nojos:
“Podemos até procurá-los, mas nada encontraremos nestes cérebros.
Uma vírgula no contrato está errada! Procurem as falhas, contem uns
aos outros e depois subam. Uma escada espera no final do Corredor dos
Quadros Negros”. Um caminho que abriga uma coleção de imagens. Molduras
escuras aparam um rosto que sorri maldosamente. Um olho chora nuvens
de chuvas. Um corrimão de espinhos entalhado em prata. Um rio e dois
peixes sendo devorados pelo prazer da água. A vida no corredor ensina
a andar. Era uma louca passagem passar por ali.
Os
Chaterveell se recolhem. E recolhem para escrever as palavras em cada
corpo: matavam, esmagavam lentamente. O beijo flutua em aspirais no
lustre cristalino do quarto. Amam como se a vida lhes tivesse dado um
prêmio: são deuses raros! Acordam e logo era acesa a chama da casa.
Aquela noite jura uma madrugada de peles frescas e sangues puros. Os
cálices eram polidos à fina seda. Os chamados para a ocasião chegam.
Sempre com olhos nos cantos.
“E
nós, rei e rainha, catamos olhares que se parecem bolhas desorientadas”.
Começaram a leitura, e quem abre a primeira página era o escolhido.
Ele leu: “Eu – a voz parece ter engolido um fonema desconhecido
– assino o pacto que nossas presas abrirão caminho para o sangue
percorrer o cálice. Brindamos!”.
O gole inicial é da
inquietante Veell. O seguinte é dele, o detentor do ódio e medo, Chater,
que inunda a boca de vontade.
Bebem
e se animam dançar “A Pena dos Vivos”: uma música que lhes foi
oferecida por um amigo. Dançam como se uma única pena tivesse se deslocado
do voo leve do pássaro negro. Uma valsa da eternidade. Os corpos parecem
sumir no ar e o cheiro da força da carne foi espalhado. Todos. Amanhece,
viram as costas, fecham as portas maiores e tudo que restou foram sobras
de sussurros que invadem as paredes. Mais uma vez o casal Chaterveell
vence a batalha do ser. “Querido amor, quando não seremos os últimos?”.
Esta é a raridade, querida. Jamais outros! Somos o entendimento mais
próximo dos fracos. “Morreremos? Não, comecemos a cavar”. Fecharam
o Livro, apagam a lareira, cobrem-se com sangue.