Gertrudes
era solitária. Não conhecia pai, não conhecia mãe. Vivia, há muito,
sozinha na sua estreita residência. Senhora comprida, maior que muito
homem, se é que se pode chamá-la de senhora. Gertrudes era hermafrodita.
Talvez por isso, ou pelo seu tamanho, vivesse tão só. Sua casa era
úmida, escura e ela, Gertrudes, fina, branquela, feia. Diziam que a
distinta senhora não tinha pingo de razão. Vivia com seus anéis e
levava na cabeça algo que parecia uma coroa. A vida lhe era monótona,
mas preferia não largá-la. Prendia-se a ela, grudava com tal força
que alguns juravam que Gertrudes era imorrível.
Valdomiro
era o proprietário da residência de Gertrudes e já não a agüentava
mais em território seu. Chegara a hora do despejo. Mas quem disse que
era fácil colocar a ilustre senhora pra fora? O senhor proprietário
até tentou de tudo, mas dona Gertrudes, na mudez total, lhe dizia com
gestos que não ia sair.
Sem
a pretensão de defender o lado de Gertrudes ou o de seu Valdomiro,
escrevo. Cabe ponderar os dois, ser imparcial como todo aquele que registra
causa tão importante. Por um lado, Gertrudes era já idosa, fraca,
desmiolada, sempre vivera ali. Por que lhe iam expulsar? Expulsar dona
Gertrudes seria a morte. E não é matar o pior pecado? Por outro lado,
pensemos em seu Valdomiro: a residência era sua, nunca recebeu nada,
Gertrudes já estava a lhe pôr doente, vai que morre um dia. E não
é matar o pior pecado?
Pois
adivinhe. Prevaleceu o lado do mais forte. Foi com a ajuda de uma tal
de Dona Thereza. Seu Valdomiro ingeriu paçoca de abóbora moída com
açúcar refinado e logo veio a dor de barriga. Arriou foi ali mesmo,
em esquina qualquer de Capuruí. Pôs-se a cagar forte, parecia que
lhe iam sair os órgãos de dentro. Saiu junto com a merda, Gertrudes:
branquela, fina, corpo anelado. Ainda se mexeu duas ou três vezes,
até que Valdomiro lhe olhou com raiva e lhe pisou a cabeça. Foi o
fim da raça da tênia.
Cão
Andaluz