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Boa leitura!
Título: GERTRUDES
Publicado em: 12-02-2010
Autor: Vinícius Antunes  (Saiba mais)
Leituras: 532
Média: ~ 10
Total de comentários: 8 (Ler comentários)
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GERTRUDES

Gertrudes era solitária. Não conhecia pai, não conhecia mãe. Vivia, há muito, sozinha na sua estreita residência. Senhora comprida, maior que muito homem, se é que se pode chamá-la de senhora. Gertrudes era hermafrodita. Talvez por isso, ou pelo seu tamanho, vivesse tão só. Sua casa era úmida, escura e ela, Gertrudes, fina, branquela, feia. Diziam que a distinta senhora não tinha pingo de razão. Vivia com seus anéis e levava na cabeça algo que parecia uma coroa. A vida lhe era monótona, mas preferia não largá-la. Prendia-se a ela, grudava com tal força que alguns juravam que Gertrudes era imorrível.

Valdomiro era o proprietário da residência de Gertrudes e já não a agüentava mais em território seu. Chegara a hora do despejo. Mas quem disse que era fácil colocar a ilustre senhora pra fora? O senhor proprietário até tentou de tudo, mas dona Gertrudes, na mudez total, lhe dizia com gestos que não ia sair.

Sem a pretensão de defender o lado de Gertrudes ou o de seu Valdomiro, escrevo. Cabe ponderar os dois, ser imparcial como todo aquele que registra causa tão importante. Por um lado, Gertrudes era já idosa, fraca, desmiolada, sempre vivera ali. Por que lhe iam expulsar? Expulsar dona Gertrudes seria a morte. E não é matar o pior pecado? Por outro lado, pensemos em seu Valdomiro: a residência era sua, nunca recebeu nada, Gertrudes já estava a lhe pôr doente, vai que morre um dia. E não é matar o pior pecado?

Pois adivinhe. Prevaleceu o lado do mais forte. Foi com a ajuda de uma tal de Dona Thereza. Seu Valdomiro ingeriu paçoca de abóbora moída com açúcar refinado e logo veio a dor de barriga. Arriou foi ali mesmo, em esquina qualquer de Capuruí. Pôs-se a cagar forte, parecia que lhe iam sair os órgãos de dentro. Saiu junto com a merda, Gertrudes: branquela, fina, corpo anelado. Ainda se mexeu duas ou três vezes, até que Valdomiro lhe olhou com raiva e lhe pisou a cabeça. Foi o fim da raça da tênia.

Cão Andaluz


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Comentários Nome: Bruno M. Magrini
Comentado em: 15-07-2010
Nota atribuída à obra: 10
Comentário:
Faço minha todas as palavras de elogio abaixo.


Nome: Vanessa
Comentado em: 08-04-2010
Nota atribuída à obra: 10
Comentário:
Realmente incrível, surpreendente. Parabéns!


Nome: Rogerio Tadeu
Comentado em: 08-04-2010
Nota atribuída à obra: 10
Comentário:
Excelente!!! Quanta suavidade na narrativa, mesmo sendo um conto grotesco. Quanta criatividade, sensibilidade, técnica, quanto talento. Vinícius, tens o dom da escrita e no dom de escrever, o dom de compreender e interpretar a vida. Parabéns!


Nome: Arthur
Comentado em: 08-04-2010
Nota atribuída à obra: 10
Comentário:
Esse conto não poderia estar em outro site. Grotesco, porém muito criativo e inesperado.


Nome: Sandro
Comentado em: 01-04-2010
Nota atribuída à obra: 10
Comentário:
O curioso é que o autor deixa patente na primeira frase a verdadeira identidade de Gertrudes, fato que passa despercebido aos leitores. Ótimo conto, parabéns.


Nome: Marcus Huguenim
Comentado em: 20-03-2010
Nota atribuída à obra: 10
Comentário:
Gertrudes conseguiu que eu a amasse e odiasse. Pobre Valdomiro, brasileiros mil compartilham da mesma angústia. Excelente texto. Parabéns ao autor.


Nome: Emanoelle Farias
Comentado em: 20-03-2010
Nota atribuída à obra: 10
Comentário:
Excelente texto: surpreendente, irônico.Gertrudes é uma personagem complexa que consegue, com poucas linhas de diferença, despertar compaixão e asco.


Nome: Isabel Oliveira
Comentado em: 19-03-2010
Nota atribuída à obra: 10
Comentário:
Com apenas um caso banal do cotidiano que poderia ser de qualquer pessoa, o autor consegue criar uma narrativa envolvente, com a qual mantém o suspense até às últimas linhas. Ficamos curiosos com o fim de Gertrudes, "personagem" que chega a nos causar certa compaixão. Ao nos depararmos com o triste fim da personagem, descobrimos algo mais surpreendente: a ironia da narrativa. Gertrudes era realmente um mal e precisava ser banido.



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