O
Leão Vegetariano
Era
uma vez um leão vegetariano.
Os
seus pais bem se tinham esforçado para lhe ensinar a caçar, mas Liano
não quis aprender.
Sempre
que cercavam uma presa, Liano avançava para ela mas... só conseguia
dar-lhe umas lambidelas amigáveis e nada mais!
À
medida que Liano crescia, a esperança dos seus pais em que ele mudasse
os seus hábitos alimentares e de caça ia, ao mesmo tempo, diminuindo.
A
Real Família selvagem começou a ser alvo de chacota dos outros animais
da floresta:
—
Onde é que já se viu, um leão vegetariano? É mas é um cobardolas,
e a culpa é dos pais, que não o souberam ensinar a ser bravo e feroz
como um Rei da Selva deve ser! – diziam.
Um
dia o seu pai, farto de tanta gozação, chamou o filho e disse-lhe:
—
Liano, és a vergonha da família! O teu comportamento não é digno
de um aspirante a Rei da Selva. Esperava que com a idade te modificasses
mas, se mudanças houve, foram certamente para pior. Assim, decidimos
que deverás abandonar imediatamente a nossa Selva e rumar para bem
longe daqui. E lembra-te: só poderás regressar quando e se algum dia
decidires ser carnívoro, agressivo, feroz e assassino, como deve ser
qualquer leão que se preze!
Liano,
com o rabo entre as pernas, abandonou nesse mesmo dia a família, os
(poucos) amigos e a selva. Vagueou dias e noites, noites e dias, procurando
um lugar onde aceitassem leões vegetarianos.
Depois
de muito procurar lá conseguiu encontrar um grupo de leões que
o aceitou. Tal como ele, também eles tinham sido escorraçados das
selvas da sua infância. Um, por gostar de pintar as unhas; outro por
ter um piercing no nariz; outro ainda por usar rabo de cavalo,
e outros dois por rugirem com um tom de voz muito agudo...
Durante
muito tempo viveu com estes novos companheiros; com eles cresceu e se
tornou um leão imponente, com farta juba, garras aguçadas, dentes
afiados... e vegetariano.
Liano
julgou ser capaz de esquecer a família, os antigos (poucos) amigos
e a selva onde nascera.
Mas
não.
As
saudades, que quase se haviam apagado qual fogo não alimentado, voltaram
em força, tornando-se mais importantes do que as suas convicções
vegetarianas.
Tomou
uma decisão: se para voltar a ver a sua família, os seus (poucos)
amigos de infância e a selva onde nascera precisava de ser, nem que
por uma só vez, carnívoro, agressivo, feroz e assassino, então
ele estava decidido a sê-lo.
Se
assim pensou, melhor o fez.
Armou
uma emboscada. Escondeu-se atrás dum tronco de uma árvore há
muito tombada e esperou.
Esperou
que um qualquer animal descuidado por ali passasse para ele o poder
atacar, matar e comer. Poderia assim regressar a casa!
A
noite caiu. Liano já começava a desesperar com a ausência de
possíveis presas quando ouviu um restolhar de gravetos que só
podia significar uma coisa: Um animal dirigia-se na sua direcção!
Pelo
barulho, cada vez mais intenso, devia ser uma animal corpulento, talvez
um tigre.
Liano
pensou que para primeira presa lhe podia ter calhado um animal mais
pequeno e menos perigoso. Mas agora, paciência, era tarde demais, e
nem pensar sequer em desistir.
Indo
buscar forças e habilidade aos instintos ancestrais da sua espécie,
Liano pulou agilmente quando o animal desprevenido passava em frente
do seu posto de vigia e caiu-lhe em cima.
Seguiu-se
uma luta brava, feroz, terrível. Liano, apesar das feridas que o seu
opositor lhe provocou, venceu aquele combate. Como prémio, comeu a
sua carne e roeu os seus ossos. Para recordação, e também como prova
da sua façanha, trincou e arrancou uma orelha daquele grande animal
que não conseguiu identificar na escuridão.
Ainda
o sol não nascera e já Liano percorrera muitos quilómetros de
regresso a casa. A estes se seguiram muitos outros, parecendo-lhe ainda
mais do que aqueles que o haviam levado para tão longe das suas raízes,
há muito tempo atrás.
Finalmente
chegou. A selva, pelo que podia ver, estava na mesma. Brevemente estaria
no local onde dera os primeiros passos e comera as primeiras... plantas.
Estranhou
o enorme silêncio. Normalmente, a esta hora do dia, a algazarra seria
grande e o movimento frenético. No entanto, nem movimento nem barulho.
Apenas um gemido longínquo, abafado, chegava agora aos seus ouvidos.
Resolveu
seguir aquele som lúgubre e assustador.
Ao
chegar a uma clareira onde era costume os habitantes da selva reunirem-se
para conversar e decidir o seu destino, deparou com um cenário impressionante.
Os
animais encontravam-se dispostos em círculos concêntricos em função
da sua importância naquela sociedade selvagem.
Os
mais importantes desenhavam os círculos mais pequenos, logo mais próximos
do centro de todos eles. Os menos importantes desenhavam os círculos
maiores, com mais elementos mas mais afastados do centro comum.
À
medida que Liano se aproximava dos círculos mais afastados estes, vendo
quem ele era, abriam um espaço para que ele pudesse ir andando até
ao centro.
Liano
pressentiu que algo de muito grave acontecera e, pior do que isso, que
devia estar relacionado com alguém da sua família. A expressão de
tristeza e de compaixão com que o olhavam e a forma como abriam brechas
para a sua passagem deixavam-lhe poucas dúvidas.
Procurando
disfarçar o nervosismo e receio que dele se apoderaram caminhou altivo
e imponente. Queria causar boa impressão neste seu ansiado regresso.
Quando
finalmente atingiu o último círculo, formado pelos seus irmãos e
irmãs, percebeu que os seus pressentimentos, infelizmente, estavam
certos. A desgraça, qualquer que ela fosse, tinha-se abatido sobre
a sua família.
Quando
os seus irmãos lhe cederam passagem viu que era a sua mãe o alvo de
todas as manifestações de compaixão e solidariedade. Deitada,
com os olhos inchados de muito chorar, não o viu chegar.
Liano
tocou-lhe levemente com uma pata e ela levantou, vagarosa, a cabeça.
Quando viu Liano caiu em novo pranto, logo acompanhado por um coro de
uivos e gemidos de todos os animais da selva.
Finalmente
acalmou-se e contou a Liano o que acontecera:
—
Liano, meu filho, como é bom voltar a ver-te! Pena que o teu regresso
aconteça numa altura tão triste para nós. O teu pai, soubemos hoje,
morreu numa emboscada que lhe fizeram há alguns dias.
Desta
vez foi Liano que chorou a bom chorar. Embora tivesse sido o pai a expulsá-lo
da selva, já lhe havia perdoado.
Algum
tempo depois, já mais calmo, pediu à mãe para lhe contar
como tudo tinha acontecido.
—
Não sabemos bem o que se passou. O teu pai tinha partido à tua procura
para pedir desculpa por te ter expulsado da selva. Sabes, com o passar
dos tempos e com muitos Conselhos Selvagens que fizemos concluímos
que ser vegetariano não era um pecado mortal. Percebemos que cada um
tem direito a comer aquilo de que gosta, e que ninguém tem nada com
isso!
Percebemos
também que não é preciso ser agressivo e violento para
ser um bom líder e condutor de animais. Que o mais importante é
termos princípios e nunca abdicarmos deles.
Infelizmente
foi tarde demais. Quando o teu pai estaria quase a encontrar-te foi
selvaticamente atacado.
Ninguém
terá visto o ataque, mas, a julgar pela violência do cenário
que alguns animais depois presenciaram, calcula-se que tenha sido uma
matilha de lobos a atacá-lo.
Nas
palavras de quem esteve no local, “foram de certeza animais carnívoros,
agressivos, ferozes e assassinos” que atacaram o teu pai.
Comeram-lhe
a carne, roeram-lhe os ossos e ainda lhe arrancaram uma orelha, provavelmente
como troféu.
Liano,
ao ouvir estas palavras, desmaiou.
Todos
os animais uivaram, juntando-se à sua dor. Julgavam perceber o
que lhe ia na alma, mas quem vê focinhos não vê corações,
nem mesmo de leões.
FIM
Pseudónimo:
Vegetariano